O ano em que o Brasil aprendeu a tributar de novo, e ainda não percebeu
Por Anderson F. Luciano
anderson.luciano@aflconsultores.com.br
Há um detalhe na Reforma Tributária que quase ninguém está discutindo. E é exatamente o que mais me preocupa neste ano. Estamos em 2026. Toda nota fiscal eletrônica emitida no Brasil já carrega CBS e IBS destacados, ainda em alíquota simbólica: 0,9% e 0,1%. A imprensa especializada chama isso de fase de testes. Tecnicamente, é verdade. Mas a forma como o mercado está reagindo a essa frase, “é só teste”, me lembra de algo que vivi, de dentro, em mais de duas décadas em departamentos tributários de grandes operações: a empresa que trata o ensaio geral como se fosse o intervalo.
Não é.
O erro que custa caro nunca é o da estreia. É o erro que ninguém testou no ensaio, porque todo mundo estava convencido de que ensaio não conta.
A fase de testes de 2026 não é decorativa. É o momento em que o Fisco está calibrando a infraestrutura que vai, em 2027, parar de tolerar e começar a cobrar. É o momento em que cada erro de classificação fiscal, cada campo mal preenchido em nota, cada cadastro de produto desatualizado, ainda custa retrabalho.
A partir de 2027, com a CBS cobrada de forma plena e o PIS e a COFINS extintos, esse mesmo erro vira outra coisa: crédito perdido, autuação, ou passivo que vai aparecer numa auditoria dois anos depois perguntando por que ninguém corrigiu quando havia tempo.
Mas há uma mudança nessa reforma que considero mais profunda do que a extinção de cinco tributos. É a inversão de quem apura o imposto.
Historicamente, o trabalho fiscal de uma empresa brasileira sempre foi calcular e declarar. Com o avanço do split payment e da apuração cada vez mais assistida pelo sistema do próprio Fisco, esse trabalho está mudando de natureza: deixa de ser quem preenche a guia para se tornar quem audita e valida o cálculo que o governo já fez a partir do cadastro fiscal da sua própria empresa. E se o governo calculou errado porque o seu cadastro estava errado, o ônus de provar e corrigir é inteiramente seu.
Isso muda o papel do time tributário de dentro das empresas. E muda de forma que a maioria dos gestores ainda não internalizou. Costumo dizer que existe um tipo de empresa que vai atravessar bem essa transição. Não é necessariamente a maior, nem a que tem o ERP mais caro, nem a que tem o maior departamento fiscal. É a que trata cadastro fiscal como ativo estratégico, não como rotina de back office. Porque empresa nenhuma quebra por pagar tributo. Empresa perde competitividade de verdade quando descobre tarde que vinha calculando errado há anos, com o erro se acumulando silenciosamente até virar uma conta grande demais para resolver com agilidade.
Se 2026 é o ano do ensaio, a pergunta que faço para qualquer CFO, diretor fiscal ou diretor tributário que está lendo isto é simples: sua empresa está ensaiando, ou está esperando a estreia para entender como a Reforma Tributária trará impactos para o cenário econômico nacional?
O tempo do ensaio acaba em 2027. E o Brasil, historicamente, não costuma oferecer segunda chance fiscal para quem perdeu a primeira.

